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Aula em Recife: nunca é tarde para aprender

  • Terça-feira, 26 de junho de 2007, 14h28

Recife (PE) — As paredes estão mofadas e a água da chuva entra sem dificuldades pela única janela que está com os vidros quebrados. As carteiras são velhas, o quadro-negro está empenado. A precariedade faz parte da sala de aula onde 25 homens e mulheres, já maiores de 30 anos, recuperam o tempo perdido e aprendem a ler e a escrever. Eles moram no Bairro Ibura, região pobre de Recife, e participam do programa Brasil Alfabetizado, do Ministério da Educação.


Assinar o nome é pouco para os alunos do bairro Ibura. Eles querem aprender mais (Foto: João Bittar)No Brasil, são 15 milhões de pessoas em situação de analfabetismo absoluto — não sabem sequer escrever o nome — e outros 31,7 milhões são analfabetos funcionais, pessoas capazes de escrever e ler, mas com dificuldade de interpretar o texto. O Nordeste concentra 90% dos municípios com mais de 35% de analfabetos do país. Em Pernambuco, há 1,3 milhão de analfabetos.

A doméstica Maria José da Silva só sabia copiar o próprio nome antes de fazer parte do programa Brasil Alfabetizado.”Eu copiava letra por letra do meu nome, que minha filha escrevia. Não tinha nem registro”, conta Maria José, referindo-se à certidão de nascimento. Todas as noites, depois de trabalhar o dia todo, ela caminha meia hora para ir às aulas, na igreja do bairro. “Estudo porque tenho muita força de vontade mesmo. Agora tenho até carteira de trabalho”, revela.

Além de leitura e escrita, o professor Valmir invcentiva desenho e interpretação de textos (Foto: João Bittar)Junto com ela, vai o marido, José Ferreira da Silva, que está desempregado há 12 anos e também assiste às aulas. “Eu já sabia assinar o nome faz tempo. Mas leio pouco. Com coisa comprida me atrapalho”, diz. Marido e esposa estudaram pouco, cerca de dois anos, quando crianças. “Comecei a estudar aos 7 e parei aos 9, para ajudar minha mãe na roça. Aos 12, passei a trabalhar em casa de família”, emenda Maria José. “Mas nunca é tarde para aprender”, completa o marido José.

Os dois já completaram as aulas de alfabetização, que duraram oito meses, mas vão repetir a etapa de ensino porque acham que ainda não sabem ler nem escrever direito. “Vários alunos não se sentem seguros e continuam no programa de alfabetização”, destaca o professor Valmir Pereira da Silva. Para ele, muitos adultos têm vergonha de dizer que são analfabetos. “Tivemos que buscar os alunos em casa e convencê-los a estudar. Diziam que não tinham tempo ou cabeça para aprender, eram acanhados”, ressalta Valmir. Mas esse quadro mudou, mesmo para os mais incertos quanto à própria habilidade em ler e escrever.

Durante a última aula da turma, os 25 alunos conseguiam ler as informações sobre festa junina, santos do mês e comidas típicas do São João pernambucano que o professor escreveu no quadro. Ainda desenharam o que entenderam da leitura e, sem constrangimento, contaram, um por um, o que seu desenho queria dizer. Para ensinar os alunos, Valmir, que cursa pedagogia, recebe todo mês R$ 180 por dez horas de aula por semana, além de R$ 7 por aluno.

A partir de agora, 75% dos alfabetizadores do programa Brasil Alfabetizado serão professores municipais ou estaduais, que vão ganhar R$ 200 para ensinar no contraturno de suas atividades regulares. Até o final do ano, o governo federal investirá R$ 315 milhões para alfabetização de jovens e adultos, dos quais 80% serão destinados a estados e municípios.

Maria Clara Machado

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