Dom Casmurro
Texto de referência:
Obras Completas de Machado de Assis,
vol. I,
Nova Aguilar, Rio de
Janeiro, 1994.
Publicado originalmente
pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.
CAPÍTULO PRIMEIRO
DO TÍTULO
Uma noite destas, vindo da cidade
para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que
eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou
da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os
versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu
estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele
interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para
tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte
entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro.
Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à
alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos
da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom
Casmurro, domingo vou jantar com você”.— "Vou para Petrópolis, Dom
Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho
Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”.— "Meu caro Dom Casmurro,
não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade;
dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.
Não consultes dicionários. Casmurro
não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem
calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de
fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha
narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu
poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço,
sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão
isso dos seus autores; alguns nem tanto.
CAPÍTULO II
DO LIVRO
Agora que expliquei o título,
passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a
pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em
que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão
particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos,
lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de
Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que
desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o
mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas
alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou
menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam
nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das
estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e
Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens.
Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha
do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e
figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido.
Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça
velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da
vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as
duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não
consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a
fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se
mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e
nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias;
o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade
poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.
Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a
geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos,
outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela
aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários,
e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não
quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga
aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que
perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma
recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.
Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e
não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta
monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um
livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as
forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios,
menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à
cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares,
tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a
falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os
tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a
ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem,
mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...
Fiquei tão alegre com esta idéia,
que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu,
grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o
conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste
modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo.
Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me
esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou
do espírito. É o que vais entender, lendo.
CAPÍTULO III
A DENÚNCIA
Ia a entrar na sala de visitas,
quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da
rua de Mata-cavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não
hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam
histórias velhas; o ano era de 1857.
— D. Glória, a senhora persiste na
idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode
haver uma dificuldade.
— Que dificuldade?
— Uma grande dificuldade.
Minha mãe quis saber o que era.
José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém
no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade
estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
— A gente do Pádua?
— Há algum tempo estou para lhe
dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande
metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade,
porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
— Não acho. Metidos nos cantos?
— É um modo de falar. Em segredinhos,
sempre juntos. Bentinho quase não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai
faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira que... Compreendo
o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a
alma cândida...
— Mas, Sr. José Dias, tenho visto
os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade;
Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois
criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande
enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as
nossas relações. Pois eu hei de crer? ... Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme respondeu com um
"Ora!" que, traduzido em vulgar, queria dizer: "São imaginações
do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?"
— Sim, creio que o senhor está
enganado.
— Pode ser, minha senhora. Oxalá
tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...
— Em todo caso, vai sendo tempo,
interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.
— Bem, uma vez que não perdeu a
idéia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os
desejos de sua mãe. E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não
esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o
Império...
— Governo como a cara dele!
atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.
— Perdão, doutor, não estou
defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem
grande papel no Brasil.
— Você o que quer é um capote;
ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é
melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória,
há mesmo necessidade de fazê-lo padre?
— É promessa, há de cumprir-se.
— Sei que você fez promessa... mas
uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima
Justina?
— Eu?
— Verdade é que cada um sabe melhor
de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de
tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto
é coisa de lágrimas?
Minha mãe assoou-se sem responder.
Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto
silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força
maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer.
Prima Justina exortava: "Prima Glória! Prima Glória!" José Dias
desculpava-se: "Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração,
pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...”
CAPÍTULO IV
UM DEVER AMARÍSSIMO!
José Dias amava os superlativos. Era
um modo de dar feição monumental às idéias; não as havendo, servia a prolongar
as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa.
Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas,
presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no
Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe
ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por
dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste
caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com
um princípio de calva; teria os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o
passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um
vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da
conseqüência, a conseqüência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!
CAPÍTULO V
O AGREGADO
Nem sempre ia naquele passo
vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e
lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria
largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal
ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o
mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.
Era nosso agregado desde muitos
anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de
nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual
e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma
escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar
ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo
levar a saúde à casa de sapé do pobre.
— Quem lhe impede que vá a outras
partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.
— Voltarei daqui a três meses.
Voltou dali a duas semanas,
aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas.
Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família,
ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando
outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa
escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando
que não era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola,
e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia
aceitar mais doentes.
— Mas, você curou das outras
vezes.
— Creio que sim; o mais acertado,
porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim; eles,
abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu
procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir
à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
Não foi despedido, como pedia
então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e
necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai
morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe
ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao
sétimo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.
— Fique, José Dias.
— Obedeço, minha senhora.
Teve um pequeno legado no
testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras,
encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. "Esta é a melhor
apólice", dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família,
certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era
amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas
alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da
índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham
depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado,
de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante
para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos
efeitos do calor e do frio, dos pólos e de Robespierre. Contava muita vez uma
viagem que fizera à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado
para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de
Deus, era tudo.
— Abaixo ou acima? perguntou-lhe
tio Cosme um dia.
— Abaixo, repetiu José Dias cheio
de veneração.
E minha mãe, que era religiosa,
gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias
agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio
Cosme, que era advogado, confiava-lhe a cópia de papéis de autos.
CAPÍTULO VI
TIO COSME
Tio Cosme vivia com minha mãe, desde
que ela enviuvou. Já então era viúvo, como prima Justina; era a casa dos três
viúvos.
A fortuna troca muita vez as mãos
à natureza. Formado para as serenas funções do capitalismo, tio Cosme não
enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escritório na antiga rua das Violas,
perto do júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no crime. José Dias não
perdia as defesas orais de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com
muitos cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais
modesto que quisesse ser, sorria de persuasão.
Era gordo e pesado, tinha a
respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais
antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o
levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira, segurava o
freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um
minuto de descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo
ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após
alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais,
dava o último surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a
besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme
acomodava as carnes, e a besta partia a trote.
Também não me esqueceu o que ele
me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar
dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme
pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove
anos), sozinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar
desesperadamente: "Mamãe! mamãe!" Ela acudiu, pálida e trêmula,
cuidou que me estivessem matando, apeou-me, afagou-me, enquanto o irmão
perguntava:
— Mana Glória, pois um tamanhão
destes tem medo de besta mansa?
— Não está acostumado.
— Deve acostumar-se. Padre que
seja, se for vigário na roça, é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo,
ainda não sendo padre, se quiser florear como os outros rapazes, e não souber,
há de queixar-se de você, mana Glória.
— Pois que se queixe; tenho medo.
— Medo! Ora, medo!
A verdade é que eu só vim a
aprender equitação mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que
não sabia montar. "Agora é que ele vai namorar deveras", disseram
quando eu comecei as lições. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho
costume e necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi
aceito de muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o
mais do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto de idéias
públicas e específicas. Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor.
Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias.
CAPÍTULO VII
D. GLÓRIA
Minha mãe era boa criatura. Quando
lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de
idade, e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar perto da igreja em
que meu pai fora sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns
que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices, e
deixou-se estar na casa de Mata-cavalos, onde vivera os dois últimos anos de
casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a
família Fernandes.
Ora, pois, naquele ano da graça de
1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de
idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude,
por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em
um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em triângulo
e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram apanhados
sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia a touca branca
de folhos. Lidava assim, com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos, a um
lado e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã
até à noite.
Tenho ali na parede o retrato
dela, ao lado do marido, tais quais na outra casa. A pintura escureceu muito,
mas ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a não ser vagamente que
era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me
acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um
trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contava
então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a
flor ao marido. O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal
pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de
sociedade.
Concluo que não se devem abolir as
loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má
a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte
há de ela ficar. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora, os bem-amados,
os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um sonho
provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para
eles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. São retratos que valem
por originais. O de minha mãe, estendendo a flor ao marido, parece dizer:
"Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!" O de meu pai, olhando para a
gente, faz este comentário: "Vejam como esta moça me quer..." Se
padeceram moléstias, não sei, como não sei se tiveram desgostos: era criança e
comecei por não ser nascido. Depois da morte dele, lembra-me que ela chorou
muito; mas aqui estão os retratos de ambos, sem que o encardido do tempo lhes
tirasse a primeira expressão. São como fotografias instantâneas da felicidade.
CAPÍTULO VIII
É TEMPO
Mas é tempo de tornar àquela tarde
de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho
da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o
que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar
em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que
eu ia começar a minha ópera. "A vida é uma ópera", dizia-me um velho
tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em
tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.
CAPÍTULO IX
A ÓPERA
Já não tinha voz, mas teimava em
dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre
que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas
as injustiças da Terra e do Céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a
bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando
andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Às vezes,
cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto;
vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas
vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e
como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de
mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
— A vida é uma ópera e uma grande ópera.
O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos
comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em
presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos
bailados, e a orquestração é excelente...
— Mas, meu caro Marcolini...
— Quê?...
E, depois, de beber um gole de
licor, pousou o cálice, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou
resumir.
Deus é o poeta. A música é de
Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu.
Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham
na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e
mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio
essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele
expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não
houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal
gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito
consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, — e
acaso para reconciliar-se com o céu, — compôs a partitura, e logo que a acabou
foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições
recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a
executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não
quero ouvir nada.
— Mas, Senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor
fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a
ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta,
e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e
comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios.
Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos
de autor.
Foi talvez um mal esta recusa;
dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração
amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita
e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza
da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária
de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos
lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de
repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais,
encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são
aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente
se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou
quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas
ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a
emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do
poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi
sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita
em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e
até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é
uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto
é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao
tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem
Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro
gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece
ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
— Esta peça, concluiu o velho
tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo
será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e
músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos,
porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados,
poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
— Tem graça...
— Graça? bradou ele com fúria; mas
aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho
horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos
os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor,
e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu
amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este
cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve?
Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
CAPÍTULO X
ACEITO A TEORIA
Que é demasiada metafísica para um
só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que
são, em resumo, tenores desempregados.
Eu, leitor amigo, aceito a teoria
do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a
verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo
terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não
adiantemos; vamos à primeira parte, em que eu vim a saber que já cantava,
porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim.
A mim é que ele me denunciou.
CAPÍTULO XI
A PROMESSA
Tão depressa vi desaparecer o
agregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri à varanda do fundo. Não quis
saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram
provavelmente os seus projetos eclesiásticos, e a ocasião destes é a que vou
dizer, por ser já então história velha; datava de dezesseis anos.
Os projetos vinham do tempo em que
fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com
Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na
igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem antes, nem
depois de me dar à luz; contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola, mas
enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era tão
devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a
promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separássemos o mais
tarde possível, fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por
aquele padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar às noites.
Prazos largos são fáceis de subscrever;
a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo.
Entretanto, ia-me afeiçoando à idéia da igreja; brincos de criança, livros
devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar.
Quando íamos à missa, dizia-me sempre que era para aprender a ser padre, e que
reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa,
— um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de
brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e
alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era
sempre um doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à
minha vizinha: "Hoje há missa?" Eu já sabia o que isto queria dizer,
respondia afirmativamente, e ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela,
arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus,
non sum dignus... Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia
uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água;
não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício.
Ultimamente não me falavam já do
seminário, a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. Quinze anos, não
havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de São José. Minha mãe
ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a
pretexto de nada, para apertá-la muito.
CAPÍTULO XII
NA VARANDA
Parei na varanda; ia tonto, atordoado,
as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Não me
atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um
lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava.
Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias:
"Sempre juntos..."
"Em segredinhos..."
"Se eles pegam de
namoro..."
Tijolos que pisei e repisei
naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda,
segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de
um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia
arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior. Às vezes dava por mim,
sorrindo, um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu
pecado. E as vozes repetiam-se confusas:
"Em segredinhos..."
"Sempre juntos..."
"Se eles pegam de
namoro..."
Um coqueiro, vendo-me inquieto e
adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze
anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrário, os
adolescentes daquela idade não tinham outro ofício, nem os cantos outra
utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda
que nos velhos livros. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio,
toda a gente viva do ar era da mesma opinião.
Com que então eu amava Capitu, e
Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada
entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo
travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não
restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no
último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de
sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me
nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e
palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos,
dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os
dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma
grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que
tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca.
Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não,
ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que
subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na Lua, ou então que os anjos vinham
perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de
nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não
eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam
da simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava.
Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os
meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que
sonhava... Fez-se cor de pitanga.
Pois, francamente, só agora
entendia a comoção que me davam essas e outras confidências. A emoção era doce
e nova, mas a causa dela fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os
silêncios dos últimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como
sinais de alguma coisa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as
respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infância. Também adverti
que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu, e escutá-la de
memória, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha
casa, prestava mais atenção que dantes, e, segundo era louvor ou crítica, assim
me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando éramos somente
companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele
mês, com intervalos, é verdade, mas com exclusivismo também.
Tudo isto me era agora apresentado
pela boca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava
tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de
outro. Naquele instante, a eterna Verdade não valeria mais que ele, nem a
eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu
amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes
de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da
consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse
comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser
minha. Naturalmente também por ser a primeira.
CAPÍTULO XIII
CAPITU
De repente, ouvi bradar uma voz de
dentro da casa ao pé:
— Capitu!
E no quintal:
— Mamãe!
E outra vez na casa:
— Vem cá!
Não me pude ter. As pernas desceram-me
os três degraus que davam para a chácara, e caminharam para o quintal vizinho.
Era costume delas, às tardes, e às manhãs também. Que as pernas também são
pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça
não as rege por meio de idéias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia ali uma
porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitu e eu éramos
pequenos. A porta não tinha chave nem taramela; abria-se empurrando de um lado
ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda.
Era quase que exclusivamente nossa. Em crianças, fazíamos visita batendo de um
lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de
Capitu adoeciam, o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do
braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso à doente,
e pedia-lhe que mostrasse a língua. "É surda, coitada!", exclamava
Capitu. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe
umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do
médico.
— Capitu!
— Mamãe!
— Deixa de estar esburacando o
muro; vem cá.
A voz da mãe era agora mais perto,
como se viesse já da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas,
há pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço,
empurrei a porta, e entrei. Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada para
ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar
comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma coisa. Caminhei
para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e
perguntou-me inquieta:
— Que é que você tem?
— Eu? Nada.
— Nada, não; você tem alguma
coisa.
Quis insistir que nada, mas não
achei língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair,
com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de
quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio
desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma
à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e
grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a
despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões
finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem
mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns
pontos.
— Que é que você tem? repetiu.
— Não é nada, balbuciei
finalmente.
E emendei logo:
— É uma notícia.
— Notícia de quê?
Pensei em dizer-lhe que ia entrar
para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que
realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi
obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista
não sei como...
— Então?
— Você sabe...
Nisto olhei para o muro, o lugar
em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi
uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então
quis vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que
eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o
escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.
CAPÍTULO XIV
A INSCRIÇÃO
Tudo o que contei no fim do outro
capítulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. Dei
um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dois nomes, abertos ao
prego, e assim dispostos:
BENTO
CAPITOLINA
Voltei-me para ela; Capitu tinha
os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro...
Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser
poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos,
as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se,
apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la
marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria
aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a
diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever,
sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se
deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e
desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos
outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma
das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálice, os
lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende,
e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha
devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo.
Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas
criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer
coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao
coração caladas como vinham...
CAPÍTULO XV
OUTRA VOZ REPENTINA
Outra voz repentina, mas desta vez
uma voz de homem:
— Vocês estão jogando o siso?
Era o pai de Capitu, que estava à
porta dos fundos, ao pé da mulher. Soltamos as mãos depressa, e ficamos
atrapalhados. Capitu foi ao muro, e, com o prego, disfarçadamente, apagou os
nossos nomes escritos.
— Capitu!
— Papai!
— Não me estragues o reboco do
muro.
Capitu riscava sobre o riscado,
para apagar bem o escrito. Pádua saiu ao quintal, a ver o que era, mas já a filha
tinha começado outra coisa, um perfil, que disse ser o retrato dele, e tanto
podia ser dele como da mãe; fê-lo rir, era o essencial. De resto, ele chegou
sem cólera, todo meigo, apesar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que
nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas
abauladas, donde lhe veio a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe pôs.
Ninguém lhe chamava assim lá em casa; era só o agregado.
— Vocês estavam jogando o siso?
perguntou.
Olhei para um pé de sabugueiro que
ficava perto; Capitu respondeu por ambos.
— Estávamos, sim, senhor; mas
Bentinho ri logo, não agüenta.
— Quando eu cheguei à porta, não
ria.
— Já tinha rido das outras vezes;
não pode. Papai quer ver?
E séria, fitou em mim os olhos,
convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente sério; eu estava ainda sob a ação
do que trouxe a entrada de Pádua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse
fazê-lo, para legitimar a resposta de Capitu. Esta, cansada de esperar, desviou
o rosto, dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. E nem assim
ri. Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las
cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitu, após duas
voltas, foi ter com a mãe, que continuava à porta da casa, deixando-nos a mim e
ao pai encantados dela; o pai, olhando para ela e para mim, dizia-me, cheio de
ternura:
— Quem dirá que esta pequena tem
quatorze anos? Parece dezessete. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente
para mim.
— Está.
— Há muitos dias que não a vejo.
Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando com
trabalhos da repartição em casa; escrevo todas as noites que é um desespero;
negócio de relatório. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. Ia agora
mesmo buscar a gaiola; ande ver.
Que o meu desejo era nenhum,
crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo Céu nem pela Terra. Meu desejo
era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava; mas o pai era
o pai, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de vária
espécie, cor e tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de
gaiolas de canários, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava
pássaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no próprio quintal,
armando alçapões. Também, se adoeciam, tratava deles como se fossem gente.
CAPÍTULO XVI
O ADMINISTRADOR INTERINO
Pádua era empregado em repartição dependente
do ministério da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a
vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto
que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num
meio bilhete de loteria, dez contos de réis. A primeira idéia do Pádua, quando
lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adereço de brilhantes para
a mulher, uma sepultura perpétua de família, mandar vir da Europa alguns
pássaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali está à porta dos fundos
da casa, em pé, falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma
cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era
comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes.
Pádua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem
D. Fortunata pediu auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu;
um dia chegou a salvar a vida do Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, ficou substituindo o administrador com os
respectivos honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era
antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se
às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa matava um leitão,
era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dois
meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa,
aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque chegara o efetivo naquela manhã.
Pediu à minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia sofrer a
desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a
coisa nenhuma.
— Não, minha senhora, não
consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família, tornar atrás... Já disse,
mato-me! Não hei de confessar à minha gente esta miséria. E os outros? Que
dirão os vizinhos? E os amigos? E o público?
— Que público, Sr. Pádua? Deixe-se
disso; seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa... e que há de
fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para
casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova, — ou então no
quintal, ao pé do poço, como se a idéia da morte teimasse nele. D. Fortunata
ralhava:
— Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em
morte que teve medo, e um dia correu a pedir à minha mãe que lhe fizesse o
favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo
à beira do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer
que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego
interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a
filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a vontade de
minha mãe.
— Vontade minha, não; obrigação
sua.
— Pois seja obrigação; não
desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a
entrar e sair de casa, cosido à parede, cara no chão. Não era o mesmo homem que
estragava o chapéu em cortejar a vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo
da administração interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Pádua
começou a interessar-se pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a
dormir tranqüilo as noites e as tardes, a conversar e dar notícias da rua. A
serenidade regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o ar do
costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno
interessante. Pádua começou a falar da administração interina, não somente sem
as saudades dos honorários, nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e
orgulho. A administração ficou sendo a hégira, donde ele contava para diante e
para trás.
— No tempo em que eu era
administrador...
Ou então:
— Ah! sim, lembra-me, foi antes da
minha administração, um ou dois meses antes... Ora espere; a minha
administração começou... É isto, mês e meio antes; foi mês e meio antes, não
foi mais.
Ou ainda:
— Justamente; havia já seis meses
que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias
interinas. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o padre
Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava
a lição de Elifás a Jó: "Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e
cura".
CAPÍTULO XVII
OS VERMES
"Ele fere e cura!". Quando, mais tarde, vim
a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou
quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar
em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los,
catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do
pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
— Meu senhor, respondeu-me um
longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos,
nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os
outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena.
Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de
roer o roído.
CAPÍTULO XVIII
UM PLANO
Pai nem mãe foram ter conosco, quando
Capitu e eu, na sala de visitas, falávamos do seminário. Com os olhos em mim,
Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o
que era, fez-se cor de cera.
— Mas eu não quero, acudi logo,
não quero entrar em seminários; não entro, é escusado teimarem comigo; não
entro.
Capitu, a princípio, não disse
nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e deixou-se estar com as pupilas vagas
e surdas, a boca entreaberta, toda parada. Então eu, para dar força às afirmações,
comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela
vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da
morte se fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não
parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas
faltou-me ânimo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara, creio
até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e medrosos.
Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas palavras furiosas:
— Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava
tanto de minha mãe, e minha mãe dela, que eu não podia entender tamanha
explosão. É verdade que também gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor,
ou de outra maneira, coisa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a
ameaça da separação; mas os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes
tão feios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os
seus? Que ela também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a
levou, na nossa velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um
livro de Horas... Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a
chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais.
Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer tudo a todos.
Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que fizesse;
repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que,
por nada neste mundo, entraria no seminário.
— Você? Você entra.
— Não entro.
— Você verá se entra ou não.
Calou-se outra vez. Quando tornou
a falar, tinha mudado; não era ainda a Capitu do costume, mas quase. Estava
séria, sem aflição, falava baixo. Quis saber a conversação da minha casa; eu
contei-lha toda, menos a parte que lhe dizia respeito.
— E que interesse tem José Dias em
lembrar isto? perguntou-me no fim.
— Acho que nenhum; foi só para fazer
mal. É um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me há de pagar. Quando eu
for dono da casa, quem vai para a rua é ele, você verá; não me fica um
instante. Mamãe é boa demais; dá-lhe atenção demais. Parece até que chorou.
— José Dias?
— Não, mamãe.
— Chorou por quê?
— Não sei; ouvi só dizer que ela
não chorasse, que não era coisa de choro... Ele chegou a mostrar-se
arrependido, e saiu; eu então, para não ser apanhado, deixei o canto e corri
para a varanda. Mas, deixe estar, que ele me paga!
Disse isto fechando o punho, e
proferi outras ameaças. Ao relembrá-las, não me acho ridículo; a adolescência e
a infância não são, neste ponto, ridículas; é um dos seus privilégios. Este mal
ou este perigo começa na mocidade, cresce na madureza e atinge o maior grau na
velhice. Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar
nada.
Capitu refletia. A reflexão não
era coisa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos.
Pediu-me algumas circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros,
e o tom delas. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa, que era
ela mesma, não lhe pude dar toda a significação. A atenção de Capitu estava
agora particularmente nas lágrimas de minha mãe; não acabava de entendê-las. Em
meio disto, confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria
fazer padre; era a promessa antiga, que ela, temente a Deus, não podia deixar
de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as
injúrias que lhe saíram do peito, pouco antes, que peguei da mão dela e
apertei-a muito. Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a
cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo,
vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
— Sinhazinha, qué cocada hoje?
— Não, respondeu Capitu.
— Cocadinha tá boa.
— Vá-se embora, replicou ela sem
rispidez.
— Dê cá! disse eu descendo o braço
para receber duas.
Comprei-as, mas tive de as comer
sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para
as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não
é para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e
lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão
que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da
nossa infância:
Chora, menina, chora,
Chora, porque não tem
Vintém,
a modo que lhe deixara uma impressão
aborrecida. Da toada não era; ela a sabia de cor e de longe, usava repeti-la
nos nossos jogos da puerícia, rindo, saltando, trocando os papéis comigo, ora
vendendo, ora comprando um doce ausente. Creio que a letra, destinada a picar a
vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:
— Se eu fosse rica, você fugia,
metia-se no paquete e ia para a Europa.
Dito isto, espreitou-me os olhos,
mas creio que eles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a boa intenção. Com
efeito, o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da
aventura.
Como vês, Capitu, aos quatorze
anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois;
mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e
alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. Não sei se me
explico bem. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. Assim,
para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa, Capitu,
se pudesse cumpri-lo, não me faria embarcar no paquete e fugir; estenderia uma
fila de canoas daqui até lá, por onde eu, parecendo ir à fortaleza da Laje em
ponte movediça, iria realmente até Bordéus, deixando minha mãe na praia, à
espera. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga; pelo que, não
admira que, combatendo os meus projetos de resistência franca, fosse antes
pelos meios brandos, pela ação do empenho, da palavra, da persuasão lenta e
diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. Rejeitou tio
Cosme; era um "boa-vida"; se não aprovava a minha ordenação, não era
capaz de dar um passo para suspendê-la. Prima Justina era melhor que ele, e
melhor que os dois seria o Padre Cabral, pela autoridade, mas o padre não havia
de trabalhar contra a igreja; só se eu lhe confessasse que não tinha vocação...
— Posso confessar?
— Pois, sim, mas seria aparecer
francamente, e o melhor é outra coisa. José Dias...
— Que tem José Dias?
— Pode ser um bom empenho.
— Mas se foi ele mesmo que
falou...
— Não importa, continuou Capitu;
dirá agora outra coisa. Ele gosta muito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é
que você não tenha medo, mostre que há de vir a ser dono da casa, mostre que
quer e que pode. Dê-lhe bem a entender que não é favor. Faça-lhe também
elogios; ele gosta muito de ser elogiado. D. Glória presta-lhe atenção; mas o
principal não é isso; é que ele, tendo de servir a você, falará com muito mais
calor que outra pessoa.
— Não acho, não, Capitu.
— Então vá para o seminário.
— Isso não.
— Mas que se perde em
experimentar? Experimentemos; faça o que lhe digo. Dona Glória pode ser que
mude de resolução; se não mudar, faz-se outra coisa, mete-se então o Padre
Cabral. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez, há dois
meses? D. Glória não queria, e bastava isso para que José Dias não teimasse;
mas ele queria ir, e fez um discurso, lembra-se?
— Lembra-me; disse que o teatro
era uma escola de costumes.
— Justo; tanto falou que sua mãe
acabou consentindo, e pagou a entrada aos dois... Ande, peça, mande. Olhe;
diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.
Estremeci de prazer. São Paulo era
um frágil biombo, destinado a ser arredado um dia, em vez da grossa parede
espiritual e eterna. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. Capitu
repetiu-os, acentuando alguns, como principais; e inquiria-me depois sobre
eles, a ver se entendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que
pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem
obrigação de o trazer. Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela
manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o
primeiro dia, como no Gênesis, onde se fizeram sucessivamente sete.
CAPÍTULO XIX
SEM FALTA
Quando voltei a casa era noite.
Vim depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao
agregado. Formulei o pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom
delas, entre seco e benévolo. Na chácara, antes de entrar em casa, repeti-as
comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam às
recomendações de Capitu: "Preciso falar-lhe, sem falta, amanhã;
escolha o lugar e diga-me". Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda
as palavras sem falta, como para sublinhá-las. Repeti-as ainda, e então
achei-as secas demais, quase ríspidas, e, francamente, impróprias de um
criançola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.
Afinal disse comigo que as
palavras podiam servir, tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. E a prova é
que, repetindo-as novamente, saíram-me quase súplices. Bastava não carregar
tanto, nem adoçar muito, um meio-termo. "E Capitu tem razão, pensei, a casa
é minha, ele é um simples agregado... Jeitoso é, pode muito bem trabalhar por
mim, e desfazer o plano de mamãe."
CAPÍTULO XX
MIL PADRE-NOSSOS E MIL
AVE-MARIAS
Levantei os olhos ao céu, que
começava a embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao
outro Céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então
disse de mim para mim: "Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias,
se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário".
A soma era enorme. A razão é que
eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos
padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a
Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino
acostumara-me a pedir ao Céu os seus favores, mediante orações que diria, se
eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se
amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta,
cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a
vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era
feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça
de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O Céu fazia-me
o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.
— Mil, mil, repeti comigo.
Realmente, a matéria do benefício
era agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência
inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos.
Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem
muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino te
enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no
modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante
a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência
moral sem deficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a
ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas
escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez
no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por
força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam
empenhar-me outra vez a alma...
CAPÍTULO XXI
PRIMA JUSTINA
Na varanda achei prima Justina,
passeando de um lado para outro. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera.
— Estive aqui ao pé, conversando
com D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?
— Perguntou, mas eu disse que você
já tinha vindo.
A mentira espantou-me, não menos
que a franqueza da notícia. Não é que prima Justina fosse de biocos, dizia
francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de
Pedro; mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenária,
magra e pálida, boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor de minha mãe,
e também por interesse; minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si, e
antes parenta que estranha.
Passeamos alguns minutos na
varanda, alumiada por um lampião. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos
de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha
à vida de padre. Respondi esquivo:
— Vida de padre é muito bonita.
— Sim, é bonita; mas o que
pergunto é se você gostaria de ser padre, explicou rindo.
— Eu gosto do que mamãe quiser.
— Prima Glória deseja muito que
você se ordene, mas ainda que não desejasse, há cá em casa quem lhe meta isso
na cabeça.
— Quem é?
— Ora, quem! Quem é que há de ser?
Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu também não.
— José Dias? concluí.
— Naturalmente.
Enruguei a testa
interrogativamente, como se não soubesse nada. Prima Justina completou a
notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a
promessa antiga.
— Prima Glória pode ser que, em
passando os dias, vá esquecendo a promessa; mas como há de esquecer se uma
pessoa estiver sempre, nos ouvidos, zás que darás, falando do seminário? E os
discursos que ele faz, os elogios da igreja, e que a vida de padre é isto e
aquilo, tudo com aquelas palavras que só ele conhece, e aquela afetação... Note
que é só para fazer mal, porque ele é tão religioso como este lampião. Pois é
verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje de tarde falou como você
não imagina...
— Mas falou à toa? perguntei, a
ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha.
Não contou; fez apenas um gesto
como indicando que havia outra coisa que não podia dizer. Novamente me
recomendou que não me desse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de
José Dias, e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e,
apesar da casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:
— Prima Justina, a senhora era
capaz de uma coisa?
— De quê?
— Era capaz de... Suponha que eu
não gostasse de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...
— Isso não, atalhou prontamente;
prima Glória tem este negócio firme na cabeça, e não há nada no mundo que a
faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era pequenino, já ela contava
isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a
memória, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas também, pedir
outra coisa, não peço. Se ela me consultasse, bem; se ela me dissesse: "Prima
Justina, você que acha?", a minha resposta era: "Prima Glória, eu
penso que, se ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se não gosta, o melhor é
ficar". É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir
falar-lhe sem ser chamada, não faço.
CAPÍTULO XXII
SENSAÇÕES ALHEIAS
Não alcancei mais nada, e para o
fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Então, como
eu quisesse ir para dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do
calor e da próxima festa da Conceição, dos meus velhos oratórios, e finalmente
de Capitu. Não disse mal dela; ao contrário, insinuou-me que podia vir a ser
uma moça bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria que era a mais bela
criatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, como prima
Justina se metesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os costumes, o
trabalhar para os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto me acendeu a
ponto de elogiá-la também. Quando não era com palavras, era com o gesto de
aprovação que dava a cada uma das asserções da outra, e certamente com a
felicidade que devia iluminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a
denúncia de José Dias, ouvida por ela, à tarde, na sala de visitas, se é que
também ela não desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então senti que os
olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me,
cheirar-me, gostar-me, fazer o ofício de todos os sentidos. Ciúmes não podiam
ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar
para ciúmes. É certo que, após algum tempo, modificou os elogios a Capitu, e
até lhe fez algumas críticas, disse-me que era um pouco trêfega e olhava por
baixo; mas ainda assim, não creio que fossem ciúmes. Creio antes... sim... sim,
creio isto. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias
uma ressurreição vaga das próprias. Também se goza por influição dos lábios que
narram.
CAPÍTULO XXIII
PRAZO DADO
— Preciso falar-lhe amanhã, sem
falta; escolha o lugar e diga-me.
Creio que José Dias achou desusado
este meu falar. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava, mas as
palavras o eram, e o não interrogar, não pedir, não hesitar, como era próprio da
criança e do meu estilo habitual, certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e
de uma nova situação. Foi no corredor, quando íamos para o chá; José Dias vinha
andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima
Justina. Lia cantado e compassado. Os castelos e os parques saíam maiores da
boca dele, os lagos tinham mais água e a "abóbada celeste" contava
alguns milhares mais de estrelas cintilantes. Nos diálogos, alternava o som das
vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores,
e reproduziam com moderação a ternura e a cólera.
Ao despedir-se de mim, na varanda,
disse-me ele:
— Amanhã, na rua. Tenho umas
compras que fazer, você pode ir comigo, pedirei a mamãe. É dia de lição?
— A lição foi hoje.
— Perfeitamente. Não lhe pergunto
o que é; afirmo desde já que é matéria grave e pura.
— Sim, senhor.
— Até amanhã.
Fez-se tudo o melhor possível.
Houve só uma alteração; minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu
fosse a pé; entramos no ônibus, à porta de casa.
— Não importa, disse-me José Dias;
podemos apear-nos à porta do Passeio Público.
CAPÍTULO XXIV
DE MÃE E DE SERVO
José Dias tratava-me com extremos de
mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a
andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava
dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene
e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da
desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio
risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras
letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e
história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no
fim, perguntava ao padre: "Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha
depressa?" Chamava-me "um prodígio"; dizia a minha mãe ter
conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses,
sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades
morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio,
gostava do elogio; era um elogio.
CAPÍTULO XXV
NO PASSEIO PÚBLICO
Entramos no Passeio Público.
Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se
melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos para o
terraço. Andando, para me dar ânimo, falei do jardim:
— Há muito tempo que não venho
aqui, talvez um ano.
— Perdoe-me, atalhou ele, não há
três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua; não se lembra?
— É verdade, mas foi tão de
passagem. . .
— Ele pediu a sua mãe que o
deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como a mãe de Deus, consentiu; mas
ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua.
— Mas eu andei algumas vezes...
— Quando era mais jovem; era
criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e
ele vai tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disso. A gente
Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu...
Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois,
apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a
adulação! D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um
bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e
as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele
anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo
é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria,
como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados...
— Perdão, interrompi suspendendo o
passo, nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrário, um dia, não há
muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presença, que o senhor era
"um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras."
José Dias sorriu deliciosamente,
mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:
— Não lhe agradeço nada. Outros,
de melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que
ele seja o que lhe digo.
Tínhamos outra vez andado, subimos
ao terraço, e olhamos para o mar.
— Vejo que o senhor não quer senão
o meu benefício, disse eu depois de alguns instantes.
— Pois que outra coisa, Bentinho?
— Neste caso, peço-lhe um favor.
— Um favor? Mande, ordene, que é?
— Mamãe...
Durante algum tempo não pude dizer
o resto, que era pouco, e vinha de cor. José Dias tornou a perguntar o que era,
sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim,
ansioso também, como a prima Justina na véspera.
— Mamãe quê? Que é que tem mamãe?
— Mamãe quer que eu seja padre,
mas eu não posso ser padre, disse finalmente.
José Dias endireitou-se pasmado.
— Não posso, continuei eu, não menos
pasmado que ele, não tenho jeito, não gosto da vida de padre. Estou por tudo o
que ela quiser; mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda; estou pronto a ser
o que for do seu agrado, até cocheiro de ônibus. Padre, não; não posso ser
padre. A carreira é bonita, mas não é para mim.
Todo esse discurso não me saiu
assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório, como pode parecer do texto,
mas aos pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida. Não obstante, José Dias
ouvira-o espantado. Não contava certamente com a resistência, por mais acanhada
que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:
— Conto com o senhor para
salvar-me.
Os olhos do agregado
escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava
dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. Toda a
cara dele era pouca para a estupefação. Realmente, a matéria do discurso
revelara em mim uma alma nova; eu próprio não me conhecia. Mas a palavra final
é que trouxe um vigor único. José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram
às dimensões ordinárias:
— Mas que posso eu fazer?
perguntou.
— Pode muito. O senhor sabe que,
em nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os seus conselhos, não é?
Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento...
— São bondades, retorquiu
lisonjeado. São favores de pessoas dignas, que merecem tudo... Aí está! nunca
ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais; por quê? porque são ilustres
e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo. Tenho
conhecido famílias distintas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de
sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas é só
um, — é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.
— Há de ter também o de proteger
os amigos, como eu.
— Em que lhe posso valer, anjo do
céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é, além de promessa, a
ambição e o sonho de longos anos. Quando pudesse, é tarde. Ainda ontem fez-me o
favor de dizer: "José Dias, preciso meter Bentinho no seminário".
Timidez não é tão ruim moeda, como
parece. Se eu fosse destemido, é provável que, com a indignação que
experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas então seria preciso
confessar-lhe que estivera à escuta, atrás da porta, e uma ação valia outra.
Contentei-me de responder que não era tarde.
— Não é tarde, ainda é tempo, se o
senhor quiser.
— Se eu quiser? Mas que outra
coisa quero eu, senão servi-lo. Que desejo, senão que seja feliz, como merece?
— Pois ainda é tempo. Olhe, não é
por vadiação. Estou pronto para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou
para São Paulo...
CAPÍTULO XXVI
AS LEIS SÃO BELAS
Pela cara de José Dias passou algo
parecido com o reflexo de uma idéia, — uma idéia que o alegrou
extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu tinha os olhos nele, ele
voltara os seus para o lado da barra. Como insistisse:
— É tarde, disse ele; mas, para
lhe provar que não há falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não prometo
vencer, mas lutar; trabalharei com alma. Deveras, não quer ser padre? As leis
são belas, meu querido... Pode ir a São Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais
longe. Há boas universidades por esse mundo fora. Vá para as leis, se tal é a
sua vocação. Vou falar a Dona Glória, mas não conte só comigo; fale também a
seu tio.
— Hei de falar.
— Pegue-se também com Deus, — com
Deus e a Virgem Santíssima, concluiu apontando para o céu.
O céu estava meio enfarruscado. No
ar, perto da praia, grandes pássaros negros faziam giros, avançando ou
pairando, e desciam a roçar os pés na água, e tornavam a erguer-se para descer
novamente. Mas nem as sombras do céu, nem as danças fantásticas dos pássaros me
desviavam o espírito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim,
emendei-me:
— Deus fará o que o senhor quiser.
— Não blasfeme. Deus é dono de
tudo; ele é, só por si, a Terra e o Céu, o passado, o presente e o futuro.
Peça-lhe a sua felicidade, que eu não faço outra coisa... Uma vez que você não
pode ser padre, e prefere as leis... As leis são belas, sem desfazer na
teologia, que é melhor que tudo, como a vida eclesiástica é a mais santa. Por
que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma
universidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as
terras estrangeiras, ouviremos inglês, francês, italiano, espanhol, russo e até
sueco. Dona Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo; ainda que possa e vá,
não quererá guiar os negócios, papéis, matrículas, e cuidar de hospedarias, e
andar com você de um lado para outro... Oh! as leis são belíssimas!
— Está dito, pede a mamãe que me
não meta no seminário?
— Pedir, peço, mas pedir não é alcançar.
Anjo do meu coração, se vontade de servir é poder de mandar, estamos aqui,
estamos a bordo. Ah! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...
Levantou a perna e fez uma
pirueta. Uma das suas ambições era tornar à Europa, falava dela muitas vezes,
sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme, por mais que louvasse os ares e
as belezas... Não contava com esta possibilidade de ir comigo, e lá ficar
durante a eternidade dos meus estudos.
— Estamos a bordo, Bentinho,
estamos a bordo!
CAPÍTULO XXVII
AO PORTÃO
No portão do Passeio, um mendigo
estendeu-nos a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitu e no
seminário, tirei dois vinténs do bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a
moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, a fim de que eu pudesse
satisfazer todos os meus desejos.
— Sim, meu devoto!
— Chamo-me Bento, acrescentei para
esclarecê-lo.
CAPÍTULO XXVIII
NA RUA
José Dias ia tão contente que
trocou o homem dos momentos graves, como era na rua, pelo homem dobradiço e
inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo, fazia-me parar a cada passo diante de
um mostrador ou de um cartaz de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças,
recitava monólogos em verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu
aluguéis de casa; para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso
rendeu o flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e entrei a
tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no ônibus.
CAPÍTULO XXIX
O IMPERADOR
Em caminho, encontramos o
Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos
os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche
imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a
idéia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. "Sua Majestade pedindo, mamãe cede",
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me,
refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu
beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, à esperar, até que
ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda
a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à
nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança:
"O Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será?" A
nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão.
Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não me
lembra bem, os sonhos são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que me não
fizesse padre, — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.
— A Medicina, — por que lhe não
manda ensinar Medicina?
— Uma vez que é do agrado de Vossa
Majestade...
— Mande ensinar-lhe Medicina; é
uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa
Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem
ombrear com os melhores de outras terras. A Medicina é uma grande ciência;
basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las,
vencê-1as... A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a
doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira;
mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
— Mamãe querendo...
— Quero, meu filho. Sua Majestade
manda.
Então o Imperador dava outra vez a
mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as
janelas atopetadas, um silêncio de assombro; o Imperador entrava no coche,
inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: "A Medicina, a
nossa Escola." E o coche partia entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a
imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem
a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por
instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras
sem sonhos dos meus companheiros.
CAPÍTULO XXX
O SANTÍSSIMO
Terás entendido que aquela
lembrança do Imperador acerca da Medicina não era mais que a sugestão da minha
pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado são como os
outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas
recordações. Vá que fosse para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe,
muito mar e muito tempo. Viva a Medicina! Iria contar estas esperanças a
Capitu.
— Parece que vai sair o
Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!
O recebedor das passagens puxou a
correia que ia ter ao braço do cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José
Dias deu duas voltas rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo.
Iríamos também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a
primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a princípio
constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do serviço que
por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas,
entrou um sujeito esbaforido; era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar
o Santíssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de
aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre,
que lavava as mãos. Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho,
aproximou-se deles; eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava ao sacristão uma das
varas do pálio. José Dias pediu uma para si.
— Há só uma disponível, disse o
sacristão.
— Pois essa, disse José Dias.
— Mas eu tinha pedido primeiro,
aventurou Pádua.
— Pediu primeiro, mas entrou
tarde, retorquiu José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao
outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão
achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros
seguradores do pálio que cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como
José Dias. Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma
vez que tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, "jovem
seminarista", a quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou
pálido, como as tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que
me conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se
eu era deveras seminarista.
— Ainda não, mais vai sê-lo,
respondeu José Dias, piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso,
fiquei zangado.
— Bem, cedo ao nosso Bentinho,
suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a
vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos
moribundos, levando uma tocha, mas que a última vez conseguira uma vara do
pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento;
para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto,
cheio de uma glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que
entrara na igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir
pedi-lo. E nada! E tornava à tocha comum, outra vez a interinidade
interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a
vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que
nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do
pálio.
Opas enfiadas, tochas distribuídas
e acesas, padre e cibório prontos, o sacristão de hissope e campainha nas mãos,
saiu o préstito à rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis,
que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma
metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu
vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo, nem ao agregado, que,
paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos
exércitos. Com pouco, senti-me me cansado; os braços caíam-me, felizmente a
casa era perto, na Rua do Senado.
A enferma era uma senhora viúva,
tísica, tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos, que estava chorando à
porta do quarto. A moça não era formosa, talvez nem tivesse graça; os cabelos
caíam despenteados, e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não
obstante, o total falava e cativava o coração. O vigário confessou a doente,
deu-lhe a comunhão e os santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti
os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A
dor era comunicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me
mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar também,
enfiei pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:
— Não chore assim!
A imagem de Capitu ia comigo, e a
minha imaginação, assim como lhe atribuíra lágrimas, há pouco, assim lhe encheu
a boca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os
braços no ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e
a voz era dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de um
lustre nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa contrária à
morte, e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação me dominou tanto que
José Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:
— Não ria assim!
Fiquei sério depressa. Era o
momento da saída. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distância, e
agora voltávamos para a igreja, o que fazia a distância menor, — o peso da vara
era muito pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da
minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam às janelas
ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem, tudo me enchia a
alma de lepidez nova.
Pádua, ao contrário, ia mais
humilhado. Apesar de substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha,
da miserável tocha. E contudo havia outros que também traziam tocha, e apenas
mostravam a compostura do ato; não iam garridos, mas também não iam tristes.
Via-se que caminhavam com honra.
CAPÍTULO XXXI
AS CURIOSIDADES DE
CAPITU
Capitu preferia tudo ao seminário.
Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação, se vingasse a idéia da
Europa, mostrou-se satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:
— Não, Bentinho, deixemos o
Imperador sossegado, replicou; fiquemos por ora com a promessa de José Dias.
Quando é que ele disse que falaria a sua mãe?
— Não marcou dia; prometeu que ia
ver, que falaria logo que pudesse, e que me pegasse com Deus.
Capitu quis que lhe repetisse as
respostas todas do agregado, as alterações do gesto e até a pirueta, que apenas
lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o
diálogo, tudo parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia,
rotulava e pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura
melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma
criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não
disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na
alma do leitor, à força de repetição.
Era também mais curiosa. As
curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécie, explicáveis
e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas;
gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os sete anos, aprendera a ler,
escrever e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por
exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse.
Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lhe
propor gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu
confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. Em
compensação, quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e
parceiro deste ao solo, mas não foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.
— Anda apanhar um capotinho,
Capitu, dizia-lhe ele.
Capitu obedecia e jogava com
facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la
desenhando a lápis um retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse
para ver se estava parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe
tinha na sala e que ainda agora está comigo. Perfeição não era; ao contrário,
os olhos saíram esbugalhados, e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre
outros. Mas, não tendo ela rudimento algum de arte, e havendo feito aquilo de
memória em poucos minutos, achei que era obra de muito merecimento;
descontai-me a idade e a simpatia. Ainda assim, estou que aprenderia facilmente
pintura, como aprendeu música mais tarde. Já então namorava o piano da nossa
casa, velho traste inútil, apenas de estimação. Lia os nossos romances,
folheava os nossos livros de gravuras, querendo saber das ruínas, das pessoas,
das campanhas, o nome, a história, o lugar. José Dias dava-lhe essas notícias
com certo orgulho de erudito. A erudição deste não avultava muito mais que a
sua homeopatia de Cantagalo.
Um dia, Capitu quis saber o que
eram as figuras da sala de visitas. O agregado disse-lho sumariamente,
demorando-se um pouco mais em César, com exclamações e latins:
— César! Júlio César! Grande
homem! Tu quoque, Brute?
Capitu não achava bonito o perfil
de César, mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração.
Ficou muito tempo com a cara virada para ele. Um homem que podia tudo! que
fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões
de sestércios!
— E quanto valia cada sestércio?
José Dias, não tendo presente o
valor do sestércio, respondeu entusiasmado:
— É o maior homem da história!
A pérola de César acendia os olhos
de Capitu. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não
usava as jóias do retrato; referia-se ao que estava na sala, com o de meu pai;
tinha um grande colar, um diadema e brincos.
— São jóias viúvas, como eu,
Capitu.
— Quando é que botou estas?
— Foi pelas festas da Coroação.
— Oh! conte-me as festas da Coroação!
Sabia já o que os pais lhe haviam
dito, mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o
que se passou nas ruas. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos
salões dos bailes. Nascera muito depois daquelas festas célebres. Ouvindo falar
várias vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora este
acontecimento; disseram-lho, e achou que o Imperador fizera muito bem em querer
subir ao trono aos quinze anos. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu, mobílias
antigas, alfaias velhas, costumes, notícias de Itaguaí, a infância e a mocidade
de minha mãe, um dito daqui, uma lembrança dali, um adágio dacolá...
CAPÍTULO XXXII
OLHOS DE RESSACA
Tudo era matéria às curiosidades de
Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez
ambas as coisas, como eu. É o que contarei no outro capítulo. Neste direi
somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha
amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem
esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
— Está na sala, penteando o
cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o
espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca
(perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha
de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé.
Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela
voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
— Há alguma coisa?
— Não há nada, respondi; vim ver
você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
— Eu bem. José Dias ainda não
falou?
— Parece que não.
— Mas então quando fala?
— Disse-me que hoje ou amanhã
pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por
longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
— Que tem, tem, interrompeu
Capitu. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe
falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo,
se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é
atendido; se, porém... É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
— Teimo; hoje mesmo ele há de
falar.
— Você jura?
— Juro! Deixe ver os olhos,
Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que
José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não
sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar
assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca
os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.
A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou
que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos,
crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma
comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não
me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles
foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia
daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma
força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias
de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas,
aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as
pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando
envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os
relógios do Céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as
suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das
felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do Céu
conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus
inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no Céu os
seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro
suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou
para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente
aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma
coisa, — que era capaz de os pentear, se quisesse.
— Você?
— Eu mesmo.
— Vai embaraçar-me o cabelo todo,
isso sim.
— Se embaraçar, você desembaraça
depois.
— Vamos ver.
CAPÍTULO XXXIII
O PENTEADO
Capitu deu-me as costas,
voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a
alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à
cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta
que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o
grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com
muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças.
Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício,
mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram
parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de
propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da
pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas,
enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não
pedi ao Céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia
ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei
penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem
envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer
enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes
as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou
mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a
escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura
amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as
duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um
triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um
laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
— Pronto!
— Estará bom?
— Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que
pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para
mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos
e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela,
rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro.
Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço.
Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
— Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e
ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci
os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo;
Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem,
sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os
seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me
língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da
parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos
meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des
Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.
CAPÍTULO XXXIV
SOU HOMEM!
Ouvimos passos no corredor; era D.
Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à
porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de
acanhamento, um riso espontâneo e claro, que ela explicou por estas palavras
alegres:
— Mamãe, olhe como este senhor
cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que
tranças!
— Que tem? acudiu a mãe,
transbordando de benevolência . Está muito bem, ninguém dirá que é de pessoa
que não sabe pentear.
— O que, mamãe? Isto? redargüiu
Capitu, desfazendo as tranças. Ora, mamãe!
E com um enfadamento gracioso e
voluntário que às vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabelos para renovar
o penteado. D. Fortunata chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não
era nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ela. Depois,
parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido à parede, achou
talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu por
dissimulação...
Como eu quisesse falar também para
disfarçar o meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram
de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O
beijo de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação, um simples artigo, por
mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todas as
palavras recolheram-se ao coração, murmurando: "Eis aqui um que não fará
grande carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem..."
Assim, apanhados pela mãe, éramos
dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo
silêncio. D. Fortunata tirou-me daquela hesitação, dizendo que minha mãe me
mandara chamar para a lição de latim; o Padre Cabral estava à minha espera. Era
uma saída; despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava
as maneira da filha, mas a filha não dizia nada.
Corri ao meu quarto, peguei dos
livros, mas não passei à sala da lição; sentei-me na cama, recordando o
penteado e o resto. Tinha estremeções, tinha uns esquecimentos em que perdia a
consciência de mim e das coisas que me rodeavam, para viver não sei onde nem
como. E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia algum
som de fora, vago, próximo ou remoto, e logo perdia tudo para sentir somente os
beiços de Capitu... Sentia-os estirados, embaixo dos meus, igualmente esticados
para os dela, e unindo-se uns aos outros. De repente, sem querer, sem pensar,
saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
— Sou homem!
Supus que me tivessem ouvido,
porque a palavra saiu em voz alta, e corri à porta da alcova. Não havia ninguém
fora. Voltei para dentro e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o
eco aos meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve
maior, descobrindo a América, e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com
efeito, há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um Sol de
outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. A denúncia
de José Dias alvoroçara-me, a lição do velho coqueiro também, a vista dos
nossos nomes abertos por ela no muro do quintal deu-me grande abalo, como
vistes; nada disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou ilusão.
Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não eram a carne e o sangue dela. As
próprias mãos, tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.
— Sou homem!
Quando repeti isto, pela terceira
vez, pensei no seminário, mas como se pensa em perigo que passou, um mal
abortado, um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens não
são padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitu.
Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares; mas a saudade é isto mesmo;
é o passar e repassar das memórias antigas. Ora, de todas as daquele tempo
creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais compreensiva, a que
inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas, doces
também, de vária espécie, muitas intelectuais, igualmente intensas. Grande
homem que fosse, a recordação era menor que esta.
CAPÍTULO XXXV
O PROTONOTÁRIO
APOSTÓLICO
Enfim, peguei dos livros e corri
à lição. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser
muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Tive idéia de mentir,
alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a
minha mãe fez-me rejeitá-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos;
tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos
ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando entrei
na sala, ninguém ralhou comigo.
O Padre Cabral recebera na véspera
um recado do internúncio; foi ter com ele, e soube que, por decreto pontifício,
acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Esta distinção do papa dera-lhe
grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o
título com admiração; era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos,
acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios, e internúncios; mas que
era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o
cargo da cúria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de
voltarete, e repetia:
— Protonotário apostólico!
E voltando-se para mim:
— Prepara-te, Bentinho; tu podes
vir a ser protonotário apostólico.
Cabral ouvia com gosto a
repetição do título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na
tampa da boceta. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência,
posto que, para ligá-lo ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão
foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo,
bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico.
— Protonotário Cabral.
— Sim, tem razão; protonotário
Cabral.
— Mas, Sr. protonotário, — acudiu
prima Justina para se ir acostumando ao uso do título, — isto o obriga a ir a
Roma?
— Não, D. Justina.
— Não, são só as honras, observou
minha mãe.
— Agora, não impede — disse
Cabral, que continuava a refletir, — não impede que nos casos de maior
formalidade, atos públicos, cartas de cerimônia, etc; se empregue o título
inteiro: protonotário apostólico. No uso comum, basta protonotário.
— Justamente, assentiram todos.
José Dias, que entrou pouco depois
de mim, aplaudia a distinção, e recordou, a propósito, os primeiros atos
políticos de Pio IX, grandes esperanças da Itália; mas ninguém pegou do
assunto; o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu,
voltando a mim do receio, entendi que devia cumprimentá-lo também, e este
aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha
paternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora.
Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme,
sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:
— Não tem que festejar a vadiação;
o latim sempre lhe há de ser preciso, ainda que não venha a ser padre.
Conheci aqui o meu homem. Era a
primeira palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar
os ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza,
mas respondeu logo:
— Há de ser padre, e padre bonito.
— Não se esqueça, mana Glória, e
protonotário também. Protonotário apostólico.
— O protonotário Santiago, acentuou
Cabral.
Se a intenção do meu mestre de
latim era ir acostumando ao uso do título com o nome, não sei bem; o que sei é
que quando ouvi o meu nome ligado a tal título, deu-me vontade de dizer um
desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se
deixou ficar quieta e muda, tal como daí a pouco outras idéias... Mas essas
pedem um capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou
algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande interesse.
Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória, mas
era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho magro, sereno, dotado de
qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso,
não propriamente glutão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa
cozinha, se era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha mãe
lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que
aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a
minha mãe, novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e
queria saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao "senhor bispo", tudo marchetado do "protonotário
Santiago."
CAPÍTULO XXXVI
IDÉIA SEM PERNAS E
IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixei-os, a pretexto de brincar,
e fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor podia fazer,
sem latim, e até com latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à casa
vizinha, agarrar Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e concluí-las
daquela maneira particular, boca sobre boca. É isto, vamos, é isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito depois é
que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. Quando ali cheguei, dei
com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa, almofada no regaço,
cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a
fraseologia do agregado, oblíqua e dissimulada. As mãos pararam, depois de
encravada a agulha no pano. Eu, do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse;
e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastamos alguns minutos
compridos, até que ela deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me.
Fui ter com ela, e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que
não. A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de
aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la,
beijá-la... Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não
conhecia nada da Escritura. Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás
me fizesse dar à língua mística do Cântico um sentido direto e natural.
Então obedeceria ao primeiro versículo: "Aplique ele os lábios, dando-me o
ósculo da sua boca". E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes,
bastaria cumprir o vers. 6.° do cap. II: "A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois". Vedes aí
a cronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu conhecesse o
texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas, que não sei se não
continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou daquela situação.
CAPÍTULO XXXVII
A ALMA É CHEIA DE
MISTÉRIOS
— Padre Cabral estava esperando há
muito tempo?
— Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias.
Contei-lhe também que o Padre Cabral falara da minha entrada no seminário,
apoiando a resolução de minha mãe, e disse dele coisas feias e duras. Capitu
refletiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre,
à tarde, em minha casa.
— Pode, mas para quê?
— Papai naturalmente há de querer
ir também, mas é melhor que ele vá à casa do padre, é mais bonito. Eu não, que
já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras
pareciam ser uma troça consigo mesma, uma vez que, desde manhã, era mulher,
como eu era homem. Achei-lhe graça e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era
moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei
assim pasmado e trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para
obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém; não vivia com rapazes,
que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrécia. Dos
romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios
de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do penteado da manhã era um grande
passo no caminho da movimentação amorosa, mas o gesto de então foi justamente o
contrário deste. De manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso
que os lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve
contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim.
Não juro, começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter toda a consciência
dos meus atos; mas concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das
minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e
o outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe
as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça não quis ceder
também, e caída para trás, inutilizava todos os meus esforços, porque eu já
fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a lição do Cântico, não me
acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela; demais, este gesto
supõe um acordo de vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o
gesto para arrancar-se à outra mão e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela
luta, sem estrépito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a
cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de
mistérios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou;
mas então foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso,
relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro oposto. Naquele
desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco
mais...
Nisto ouvimos bater à porta e
falar no corredor. Era o pai de Capitu, que voltava da repartição um pouco mais
cedo, como usava às vezes. "Abre, Nanata! Capitu, abre!"
Aparentemente era o mesmo lance da manhã, quando a mãe deu conosco, mas só
aparentemente; verdade, era outro. Considerai que de manhã tudo estava acabado,
e o passo de D. Fortunata foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora
lutávamos com as mãos presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que
dava para o corredor interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez que confesso
tudo, digo aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga; pensei
nisso, cheguei a tentá-lo, mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez
um gesto inesperado, pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava
a recusar à força. Repito, a alma é cheia de mistérios.
CAPÍTULO XXXVIII
QUE SUSTO, MEU DEUS!
Quando Pádua, vindo pelo interior,
entrou na sala de visitas, Capitu, em pé, de costas para mim, inclinada sobre a
costura, como a recolhê-la, perguntava em voz alta:
— Mas, Bentinho, que é
protonotário apostólico?
— Ora, vivam! exclamou o pai.
— Que susto, meu Deus!
Agora é que o lance é o mesmo; mas
se conto aqui, tais quais, ou dois lances de há quarenta anos, é para mostrar
que Capitu não se dominava só em presença da mãe; o pai não lhe meteu mais
medo. No meio de uma situação que me atava a língua, usava da palavra com a
maior ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que o coração não lhe batia
mais nem menos. Alegou susto, e deu à cara um ar meio enfiado; mas eu, que
sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi logo falar ao pai, que
apertou a minha mão, e quis saber por que a filha falava em protonotário
apostólico. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim, e opinou logo que o pai
devia ir cumprimentar o padre em casa dele; ela iria à minha. E coligindo os
petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:
— Mamãe, jantar, papai chegou!
CAPÍTULO XXXIX
A VOCAÇÃO
Padre Cabral estava naquela
primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. Tempo
chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara
morta, sem agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado de
alma que vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém da flora
universal, traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. Cabral ouviu
as palavras de Capitu com infinito prazer.
— Obrigado, Capitu, muito
obrigado; estimo que você goste também. Papai está bom? E mamãe? A você não se
pergunta; essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de rezas?
A todas as perguntas, Capitu ia
respondendo prontamente e bem. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de
sair. Não entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante à porta
da sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como desse a este,
duas vezes em cinco minutos, o título de protonotário, José Dias, para se
desforrar da concorrência, fez um pequeno discurso em honra "ao coração
paternal e augustíssimo de Pio IX."
— Você é um grande prosa,
disse tio Cosme, quando ele acabou.
José Dias sorriu sem vexame. Padre
Cabral confirmou os louvores do agregado, sem os seus superlativos; ao que este
acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde
o princípio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:
— A vocação é tudo. O estado
eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado do
berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito
bem estudar as letras humanas, que também são úteis e honradas.
Padre Cabral retorquia:
— A vocação é muito, mas o poder
de Deus é soberano. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la, e
um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo; veja São Paulo.
— Não contesto, mas o que eu digo
é outra coisa. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser
padre, cá fora; pode-se ou não se pode?
— Pode-se.
— Pois então! exclamou José Dias triunfalmente,
olhando em volta de si. Sem vocação é que não há bom padre, e em qualquer
profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.
— Perfeitamente, mas vocação não é
só do berço que se traz.
— Homem, é a melhor.
— Um moço sem gosto nenhum à vida
eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre; tudo é que Deus o determine.
Não me quero dar por modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da
Medicina; meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pai
para que me metesse no seminário; meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto
aos estudos e à companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas, suponha que
não acontecia assim, e que eu não mudava de vocação, o que é que acontecia?
Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber, e são sempre
melhor ensinadas naquelas casas.
Prima Justina interveio:
— Como? Então pode-se entrar para
o seminário e não sair padre?
Padre Cabral respondeu que sim,
que se podia, e, voltando-se para mim, falou da minha vocação, que era
manifesta; os meus brinquedos foram sempre de igreja, e eu adorava os ofícios
divinos. A prova não provava; todas as crianças do meu tempo eram devotas.
Cabral acrescentou que o reitor de São José, a quem contara ultimamente a
promessa de minha mãe, tinha o meu nascimento por milagre; ele era da mesma
opinião. Capitu, cosida às saias de minha mãe, não atendia aos olhos ansiosos
que eu lhe mandava; também não parecia escutar a conversação sobre o seminário
e suas conseqüências, e, aliás, decorou o principal, como vim a saber depois.
Duas vezes fui à janela, esperando que ela fosse também, e ficássemos à
vontade, sozinhos, até acabar o mundo, se acabasse, mas Capitu não me apareceu.
Não deixou minha mãe, senão para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.
— Vai com ela, Bentinho, disse
minha mãe.
— Não precisa, não, D. Glória,
acudiu ela rindo, eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonotário...
— Adeus, Capitu.
Tendo dado um passo no sentido de
atravessar a sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da
idade e da ocasião eram atravessá-la de todo, seguir a vizinha corredor fora,
descer à chácara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Não
me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitu
que ia depressa, estacou e fez-me sinal que voltasse. Não obedeci; cheguei-me a
ela.
— Não venha, não; amanhã
falaremos.
— Mas eu queria dizer a você...
— Amanhã.
— Escuta!
— Fica!
Falava baixinho; pegou-me na mão, e
pôs o dedo na boca. Uma preta, que veio de dentro acender o lampião do
corredor, vendo-nos naquela atitude quase às escuras, riu de simpatia e
murmurou, em tom que ouvíssemos, alguma coisa que não entendi bem nem mal.
Capitu segredou-me que a escrava desconfiara, e ia talvez contar às outras.
Novamente me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado,
pregado, agarrado ao chão.
CAPÍTULO XL
UMA ÉGUA
Ficando só, refleti algum tempo, e
tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita
imperial; disse-vos a desta casa do Engenho Novo, reproduzindo a de
Mata-cavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existência,
viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas
capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito
que as éguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nele, foi noutro autor
antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a
minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro,
que saía logo cavalo de Alexandre; mas deixemos de metáforas atrevidas e
impróprias dos meus quinze anos. Digamos o caso simplesmente. A fantasia
daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não
tinha vocação eclesiástica. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda
inteira, e, ao passo que me assustava, abria-me uma porta de saída. "Sim,
é isto, pensei; vou dizer a mamãe que não tenho vocação, e confesso o nosso
namoro; se ela duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o
resto..."
CAPÍTULO XLI
A AUDIÊNCIA SECRETA
O resto fez-me ficar mais algum
tempo, no corredor, pensando. Vi entrar o Doutor João da Costa, e preparou-se
logo o voltarete do costume. Minha mãe saiu da sala, e, dando comigo, perguntou
se acompanhara Capitu.
— Não, senhora, ela foi só.
E quase investindo para ela:
— Mamãe, eu queria dizer-lhe uma
coisa.
— Que é?
Toda assustada, quis saber o que é
que me doía, se a cabeça, se o peito, se o estômago, e apalpava-me a testa para
ver se tinha febre.
— Não tenho nada, não, senhora.
— Mas então que é?
— É uma coisa, mamãe... Mas,
escute, olhe, é melhor depois do chá; logo... Não é nada mau; mamãe assusta-se
por tudo; não é coisa de cuidado.
— Não é moléstia?
— Não, senhora.
— É, isso é volta de constipação.
Disfarças para não tomar suadouro, mas tu estás constipado; conhece-se pela
voz.
Tentei rir, para mostrar que não
tinha nada. Nem por isso permitiu adiar a confidência, pegou em mim, levou-me
ao quarto dela, acendeu vela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu
perguntei-lhe, para principiar, quando é que ia para o seminário.
— Agora só para o ano, depois das
férias.
— Vou... para ficar?
— Como ficar?
— Não volto para casa?
— Voltas aos sábados e pelas
férias; é melhor. Quando te ordenares padre, vens morar comigo.
Enxuguei os olhos e o nariz. Ela afagou-me,
depois quis repreender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que
tinha os olhos úmidos. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. Negou que
fosse separação; era só alguma ausência, por causa dos estudos; só os primeiros
dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres, e
acabaria gostando de viver com eles.
— Eu só gosto de mamãe.
Não houve cálculo nesta palavra,
mas estimei dizê-la, por fazer crer que ela era a minha única afeição; desviava
as suspeitas de cima de Capitu. Quantas intenções viciosas há assim que
embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar
que a mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração. Por outro
lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu,
quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las; mas as
contradições são deste mundo. A verdade é que minha mãe era cândida como a
primeira aurora, anterior ao primeiro pecado; nem por simples intuição era capaz
de deduzir uma coisa de outra, isto é, não concluiria da minha repentina
oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu, como lhe dissera José Dias.
Calou-se durante alguns instantes; depois replicou-me sem imposição nem
autoridade, o que me veio animando à resistência. Daí o falar-lhe na vocação
que se discutira naquela tarde, e que eu confessei não sentir em mim.
— Mas tu gostavas tanto de ser
padre, disse ela; não te lembras que até pedias para ir ver sair os
seminaristas de São José, com as suas batinas? Em casa, quando José Dias te
chamava Reverendíssimo, tu rias com tanto gosto! Como é que agora?... Não
creio, não, Bentinho. E depois... Vocação? Mas a vocação vem com o costume,
continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.
Como eu buscasse contestá-la,
repreendeu-me sem aspereza, mas com alguma força, e eu tornei ao filho submisso
que era. Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que
fizera; não me disse as circunstâncias, nem a ocasião, nem os motivos dela,
coisas que só vim a saber mais tarde. Afirmou o principal, isto é, que a havia
de cumprir, em pagamento a Deus.
— Nosso Senhor me acudiu, salvando
a tua existência, não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho; são coisas que
não se fazem sem pecado, e Deus que é grande e poderoso, não me deixaria assim,
não, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é bom e
santo; você conhece muitos, como o Padre Cabral, que vive tão feliz com a irmã;
um tio meu também foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa de manha,
Bentinho.
Creio que os olhos que lhe deitei
foram tão queixosos, que ela emendou logo a palavra; manha, não, não podia ser
manha, sabia muito bem que eu era amigo dela, e não seria capaz de fingir um
sentimento que não tivesse. Moleza é o que queria dizer, que me deixasse de
moleza, que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em benefício dela e
para bem da minha alma. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco
atropeladamente, e a voz não lhe saía clara, mas velada e esganada. Vi que a
emoção dela era outra vez grande, mas não recuava dos seus propósitos, e
aventurei-me a perguntar-lhe:
— E se mamãe pedisse a Deus que a
dispensasse da promessa?
— Não, não peço. Estás tonto,
Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava?
— Talvez em sonho; eu sonho às
vezes com anjos e santos.
— Também eu, meu filho; mas é
inútil... Vamos, é tarde; vamos para a sala. Está entendido: no primeiro ou no segundo
mês do ano que vem, irás para o seminário. O que eu quero é que saibas bem os
livros que estás estudando; é bonito, não só para ti, como para o Padre Cabral.
No seminário há interesse em conhecer-te, porque o Padre Cabral fala de ti com
entusiasmo.
Caminhou para a porta, saímos
ambos. Antes de sair, voltou-se para mim, e quase a vi saltar-me ao colo e
dizer-me que não seria padre. Este era já o seu desejo íntimo, à proporção que
se aproximava o tempo. Quisera um modo de pagar a dívida contraída, outra
moeda, que valesse tanto ou mais, e não achava nenhuma.
CAPÍTULO XLII
CAPITU REFLETINDO
No dia seguinte fui à casa
vizinha, logo que pude. Capitu despedia-se de duas amigas que tinham ido
visitá-la, Paula e Sancha, companheiras de colégio, aquela de quinze, esta de
dezessete anos, a primeira filha de um médico, a segunda de um comerciante de
objetos americanos. Estava abatida, trazia um lenço atado na cabeça; a mãe
contou-me que fora excesso de leitura na véspera, antes e depois do chá, na sala
e na cama, até muito depois da meia-noite, e com lamparina...
— Se eu acendesse vela, mamãe
zangava-se. Já estou boa.
E como desatasse o lenço, a mãe
disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo, mas Capitu respondeu que não era preciso,
estava boa.
Ficamos sós na sala; Capitu
confirmou a narração da mãe, acrescentando que passara mal por causa do que
ouvira em minha casa. Também eu lhe contei o que se dera comigo, a entrevista
com minha mãe, as minhas súplicas, as lágrimas dela, e por fim as últimas
respostas decisivas; dentro de dois ou três meses iria para o seminário. Que
faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega, depois sombria; quando
acabei, respirava a custo, como prestes a estalar de cólera, mas conteve-se.
Há tanto tempo que isto sucedeu
que não posso dizer com segurança se chorou deveras, ou se somente enxugou os
olhos; cuido que os enxugou somente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para
animá-la, mas também eu precisava ser animado. Caímos no canapé, e ficamos a
olhar para o ar. Minto; ela olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi
assim... Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma, enquanto que
eu fitava deveras o chão, o roído das fendas, duas moscas andando e um pé de
cadeira lascada. Era pouco, mas distraía-me da aflição. Quando tornei a olhar
para Capitu, vi que não se mexia, e fiquei com tal medo que a sacudi
brandamente. Capitu tornou cá fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que
se passara com minha mãe. Satisfi-la, atenuando o texto desta vez, para não
amofiná-la. Não me chames dissimulado, chama-me compassivo; é certo que receava
perder Capitu, se lhe morressem as esperanças todas, mas doía-me vê-la padecer.
Agora, a verdade última, a verdade das verdades, é que já me arrependia de
haver falado a minha mãe, antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José
Dias; examinando bem, não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava
certo, ainda que demorado. Capitu refletia, refletia, refletia...
CAPÍTULO XLIII
VOCÊ TEM MEDO?
De repente, cessando a reflexão,
fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.
— Medo?
— Sim, pergunto se você tem medo.
— Medo de quê?
— Medo de apanhar, de ser preso,
de brigar, de andar, de trabalhar...
Não entendi. Se ela tem dito
simplesmente: "Vamos embora!" pode ser que eu obedecesse ou não; em
todo caso, entenderia. Mas aquela pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar
o que era.
— Mas... não entendo. De apanhar?
— Sim.
— Apanhar de quem? Quem é que me
dá pancada?
Capitu fez um gesto de
impaciência. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem saber de
mim, e, não querendo interrogá-la novamente, entrei a cogitar donde me viriam
pancadas, e por que, e também por que é que seria preso, e quem é que me havia
de prender. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e
infecta. Também vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção.
Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério, sem que os
olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim, a tal ponto que as
fizeram esquecer de todo. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer
infinitamente, antes diminuir até às dimensões normais, e dar-lhes o movimento
do costume. Capitu tornou ao que era, disse-me que estava brincando, não
precisava afligir-me, e, com um gesto cheio de graça, bateu-me na cara,
sorrindo, e disse:
— Medroso!
— Eu? Mas...
— Não é nada, Bentinho. Pois quem é
que há de dar pancada ao prender você? Desculpe, que eu hoje estou meia maluca;
quero brincar, e...
— Não, Capitu; você não está
brincando; nesta ocasião, nenhum de nós tem vontade de brincar.
— Tem razão, foi só maluquice; até
logo.
— Como até logo?
— Está-me voltando a dor de
cabeça; vou botar uma rodela de limão nas fontes.
Fez o que disse, e atou o lenço
outra vez na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de
mim; mas, ainda aí nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do
poço. Ventava, o céu estava coberto. Capitu falou novamente da nossa separação,
como de um fato certo e definitivo, por mais que eu, receoso disso mesmo,
buscasse agora razões para animá-la. Capitu, quando não falava, riscava no chão,
com um pedaço de taquara, narizes e perfis. Desde que se metera a desenhar, era
uma das suas diversões; tudo lhe servia de papel e lápis. Como me lembrassem os
nossos nomes abertos por ela no muro, quis fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a
taquara. Não me ouviu ou não me atendeu.
CAPÍTULO XLIV
O PRIMEIRO FILHO
— Dê cá, deixe escrever uma coisa.
Capitu olhou para mim, mas de um
modo que me fez lembrar a definição de José Dias, oblíquo e dissimulado;
levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
— Diga-me uma coisa, mas fale
verdade, não quero disfarce; há de responder com o coração na mão.
— Que é? Diga.
— Se você tivesse de escolher
entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?
— Eu?
Fez-me sinal que sim.
— Eu escolhia... mas para que
escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.
— Pois sim, mas eu pergunto.
Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer...
— Não diga isso!
—... Ou que me mato de saudades,
se você não vier logo, e sua mãe não quiser que você venha, diga-me, você vem?
— Venho.
— Contra a ordem de sua mãe?
— Contra a ordem de mamãe.
— Você deixa seminário, deixa sua
mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
— Não fale em morrer, Capitu!
Capitu teve um risinho descorado e
incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão, inclinei-me e li: mentiroso.
Era tão estranho tudo aquilo, que não
achei resposta. Não atinava com a razão do escrito, como não atinava com a do
falado. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena, é possível que a
escrevesse também, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a
cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir
ou ler. Quem, se éramos sós? D. Fortunata chegara uma vez à porta da casa, mas
entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas
passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa;
ninguém mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do
lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Nada mais, ou somente este
fenômeno curioso, que o nome escrito por ela não só me espiava do chão com
gesto escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma idéia
ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia
aceitá-la sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a secreta
esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
— Padre é bom, não há dúvida;
melhor que padre só cônego, por causa das meias roxas. O roxo é cor muito
bonita. Pensando bem, é melhor cônego.
— Mas não se pode ser cônego sem
ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.
— Bem; comece pelas meias pretas,
depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova; avise-me a
tempo para fazer um vestido à moda, saia balão e babados grandes. . . Mas
talvez nesse tempo a moda seja outra. A igreja há de ser grande, Carmo ou São
Francisco.
— Ou Candelária.
— Candelária também. Qualquer
serve, contanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente
há de perguntar: "Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido
tão bonito?" — "Aquela é D. Capitolina, uma moça que morou na Rua de
Mata-cavalos...”
— Que morou? Você vai mudar-se?
— Quem sabe onde é que há de morar
amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia; mas, tornando logo ao
sarcasmo: E você no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima,
cantando... Pater noster...
Ah! como eu sinto não ser um poeta
romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e
os dela, a graça de um e a prontidão de outro, e o sangue correndo, e o furor
na alma, até ao meu golpe final que foi este:
— Pois sim, Capitu, você ouvirá a
minha missa nova, mas com uma condição.
Ao que ela respondeu:
— Vossa Reverendíssima pode falar.
— Promete uma coisa?
— Que é?
— Diga se promete.
— Não sabendo o que é, não
prometo.
— A falar verdade são duas coisas,
continuei eu, por haver-me acudido outra idéia.
— Duas? Diga quais são.
— A primeira é que só se há de
confessar comigo, para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é
que...
— A primeira está prometida, disse
ela vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda.
Palavra que me custou, e antes não
me chegasse a sair da boca; não ouviria o que ouvi, e não escreveria aqui uma
coisa que vai talvez achar incrédulos.
— A segunda... sim... é que...
Promete-me que seja eu o padre que case você?
— Que me case? disse ela um tanto
comovida.
Logo depois fez descair os lábios,
e abanou a cabeça.
— Não, Bentinho, disse, seria
esperar muito tempo; você não vai ser padre já amanhã, leva muitos anos...
Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.
CAPÍTULO XLV
ABANE A CABEÇA, LEITOR
Abane a cabeça leitor; faça todos
os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o
não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora,
fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso
na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que
Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se
fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também
foi grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido.
Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento
dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo
isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estúpido.
Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...
CAPÍTULO XLVI
AS PAZES
As pazes fizeram-se como a guerra,
depressa. Buscasse eu neste livro a minha glória, e diria que as negociações
partiram de mim; mas não, foi ela que as iniciou. Alguns instantes depois, como
eu estivesse cabisbaixo, ela abaixou também a cabeça, mas voltando os olhos
para cima a fim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quis levantar-me para
ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitu fitou-me uns olhos tão
ternos, e a posição os fazia tão súplices, que me deixei ficar, passei-lhe o
braço pela cintura, ela pegou-me na ponta dos dedos, e...
Outra vez D. Fortunata apareceu à
porta da casa; não sei para que, se nem me deixou tempo de puxar o braço;
desapareceu logo. Podia ser um simples descargo de consciência, uma cerimônia,
como as rezas de obrigação, sem devoção, que se dizem de tropel; a não ser que
fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia...
Fosse o que fosse, o meu braço
continuou a apertar a cintura da filha, e foi assim que nos pacificamos. O
bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos
reciprocamente perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento
do espírito, e finalmente "os seus calundus”.Eu, que era muito chorão por
esse tempo, sentia os olhos molhados... Era amor puro, era efeito dos
padecimentos da amiguinha, era a ternura da reconciliação.
CAPÍTULO XLVII
"A SENHORA SAIU”
— Está bom, acabou, disse eu
finalmente; mas, explique-me só uma coisa, por que é que você me perguntou se
eu tinha medo de apanhar?
— Não foi por nada, respondeu
Capitu, depois de alguma hesitação... Para que bulir nisso?
— Diga sempre. Foi por causa do
seminário?
— Foi; ouvi dizer que lá dão
pancada... Não? Eu também não creio.
A explicação agradou-me; não tinha
outra. Se, como penso, Capitu não disse a verdade, força é reconhecer que não
podia dizê-la, e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às
visitas que "a senhora saiu", quando a senhora não quer falar a
ninguém. Há nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala
por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das
visitas enganadas, e as costas com que elas descem... A verdade não saiu, ficou
em casa, no coração de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci
triste nem zangado; achei a criada galante, apetecível, melhor que a ama.
As andorinhas vinham agora em
sentido contrário, ou não seriam as mesmas. Nós é que éramos os mesmos; ali
ficamos, somando as nossas ilusões, os nossos temores, começando já a somar as
nossas saudades.
CAPÍTULO XLVIII
JURAMENTO DO POÇO
— Não! exclamei de repente.
— Não quê?
Tinha havido alguns minutos de
silêncio, durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia; o tom da
exclamação, porém, foi tão alto que espantou a minha vizinha.
— Não há de ser assim, continuei. Dizem
que não estamos em idade de casar, que somos crianças, criançolas, — já ouvi
dizer criançolas. Bem; mas dois ou três anos passam depressa. Você jura uma
coisa? Jura que só há de casar comigo?
Capitu não hesitou em jurar, e até
lhe vi as faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma terceira:
— Ainda que você case com outra,
cumprirei o meu juramento, não casando nunca.
— Que eu case com outra?
— Tudo pode ser, Bentinho. Você
pode achar outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu
para você lembrar-se de mim nessa ocasião?
— Mas eu também juro! Juro,
Capitu, juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Basta isto?
— Devia bastar, disse ela; eu não
me atrevo a pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro modo; juremos
que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.
Compreendeis a diferença; era mais
que a eleição do cônjuge, era a afirmação do matrimônio. A cabeça da minha
amiga sabia pensar claro e depressa. Realmente, a fórmula anterior era
limitada, apenas exclusiva. Podíamos acabar solteirões, como o sol e a lua, sem
mentir ao juramento do poço. Esta fórmula era melhor, e tinha a vantagem de me
fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. Juramos pela segunda
fórmula, e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. Éramos
religiosos, tínhamos o céu por testemunha. Eu nem já temia o seminário.
— Se teimarem muito, irei; mas
faço de conta que é um colégio qualquer; não tomo ordens.
Capitu temia a nossa separação,
mas acabou aceitando este alvitre, que era o melhor. Não afligíamos minha mãe,
e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. Ao
contrário, qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José
Dias. Esta reflexão não foi minha, mas dela.
CAPÍTULO XLIX
UMA VELA AOS SÁBADOS
Eis aqui como, após tantas
canseiras, tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. Não nos
censures, piloto de má morte, não se navegam corações como os outros mares deste
mundo. Estávamos contentes, entramos a falar do futuro. Eu prometia à minha
esposa uma vida sossegada e bela, na roça ou fora da cidade. Viríamos aqui uma
vez por ano. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde ninguém nos fosse
aborrecer. A casa, na minha opinião, não devia ser grande nem pequena, um
meio-termo; plantei-lhe flores, escolhi móveis, uma sege e um oratório. Sim,
havíamos de ter um oratório bonito, alto, de jacarandá, com a imagem de Nossa
Senhora da Conceição. Demorei-me mais nisto que no resto, em parte porque
éramos religiosos, em parte para compensar a batina que eu ia deitar às
urtigas; mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e
inconsciente de captar a proteção do céu. Havíamos de acender uma vela aos
sábados...
CAPÍTULO L
UM MEIO-TERMO
Meses depois fui para o seminário
de São José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã,
somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma
exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este
escrúpulo de exatidão que me aflige. Entretanto, se eu me ativer só à lembrança
da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.
Realmente, por mais preparado que estivesse, padecia muito. Minha mãe também
padeceu, mas sofria com alma e coração; demais, o Padre Cabral achara um
meio-termo: experimentar-me a vocação; se no fim de dois anos, eu não revelasse
vocação eclesiástica, seguiria outra carreira.
— As promessas devem ser cumpridas
conforme Deus quer. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho, e que
o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que a
vontade divina é outra. A senhora não podia pôr em seu filho, antes de nascido,
uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou...
Era uma concessão do padre. Dava a
minha mãe um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação da dívida. Os
olhos dela brilharam, mas a boca disse que não. José Dias, não tendo alcançado
ir comigo para a Europa, agarrou-se ao mais próximo, e apoiou o "alvitre
do Sr. protonotário"; só lhe parecia que um ano era bastante.
— Estou certo, disse ele,
piscando-me o olho, que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho
se manifesta clara e decisiva. Há de dar um padre de mão-cheia. Também, se não
vier em um ano...
E a mim, mais tarde, em particular:
— Vá por um ano; um ano passa
depressa. Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, como diz o padre, e nesse
caso, meu amiguinho, o melhor remédio é a Europa.
Capitu deu-me igual conselho,
quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário:
— Minha filha, você vai perder o
seu companheiro de criança...
Fez-lhe tão bem este tratamento de
filha (era a primeira vez que minha mãe lho dava), que nem teve tempo de
ficar triste; beijou-lhe a mão, e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo.
Em particular animou-me a suportar tudo com paciência; no fim de um ano as
coisas estariam mudadas, e um ano andava depressa. Não foi ainda a nossa
despedida; esta fez-se na véspera, por um modo que pede capítulo especial. O
que unicamente digo aqui é que, ao passo que nos prendíamos um ao outro, ela ia
prendendo minha mãe, fez-se mais assídua e terna, vivia ao pé dela, com os
olhos nela. Minha mãe era de natural simpático, e igualmente sensível; tanto se
doía como se aprazia de qualquer coisa. Entrou a achar em Capitu uma porção de
graças novas, de dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas
galanterias. Não consentiu em fotografar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe
dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco anos, e,
depois de algumas hesitações, resolveu dar-lha. Os olhos de Capitu, quando
recebeu o mimo, não se descrevem; não eram oblíquos, nem de ressaca, eram
direitos, claros, lúcidos. Beijou o retrato com paixão, minha mãe fez-lhe a
mesma coisa a ela. Tudo isto me lembra a nossa despedida.
CAPÍTULO LI
ENTRE LUZ E FUSCO
Entre luz e fusco, tudo há de ser
breve como esse instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi o mais que
pôde, em casa dela, na sala de visitas, antes do acender das velas; aí é que
nos despedimos de uma vez. Juramos novamente que havíamos de casar um com o
outro, e não foi só o aperto de mão que selou o contrato, como no quintal, foi
a conjunção das nossas bocas amorosas... Talvez risque isto na impressão, se
até lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde já fica, porque,
em verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é que não juremos em
vão pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminário, uma vez que
levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Quanto ao selo, Deus, como
fez as mãos limpas, assim fez os lábios limpos, e a malícia está antes na tua
cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes... Oh! minha doce
companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de
São José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a
vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.
CAPÍTULO LII
O VELHO PÁDUA
Já agora conto também os adeuses
do velho Pádua. Logo cedo veio à nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse
falar-me ao quarto.
— Dá licença? perguntou metendo a
cabeça pela porta.
Fui apertar-lhe a mão; ele
abraçou-me com ternura.
— Seja feliz! disse-me. A mim e a
toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito
ao senhor, como merece. Se lhe disserem outra coisa, não acredite. São
intrigas. Também eu, quando me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se.
Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio, —
coisa que eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque são boas pessoas,
excelentes pessoas, e eu sou grato às finezas recebidas... Não, eu não sou como
outros, certos parasitas, vindos de fora para desunião das famílias, aduladores
baixos, não; eu sou de outra espécie; não vivo papando os jantares nem morando
em casa alheia... Enfim, são os mais felizes!
— Por que falará assim? pensei.
Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele."
— Mas, como ia dizendo, se algum
dia perder os seus parentes, pode contar com a nossa companhia. Não é suficiente
em importância, mas a afeição é imensa, creia. Padre que seja, a nossa casa
está às suas ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Pádua...
Suspirou e continuou:
— Não esqueça o seu velho Pádua, e,
se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer
coisa, um botão de colete, coisa que já lhe não preste para nada. O valor é a
lembrança.
Tive um sobressalto. Havia
embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos, tão grandes e tão bonitos,
cortados na véspera. A intenção era levá-los a Capitu, ao sair; mas tive idéia
de dá-lo ao pai, a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Peguei do embrulho e
dei-lho.
— Aqui está, guarde.
— Um cachinho dos seus cabelos!
exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e
pela minha gente! Vou dá-lo à velha, para guardá-lo, ou à pequena, que é mais
cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas?
Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!
Tinha os olhos úmidos deveras;
levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as
suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número, — um número
tão bonito!
CAPÍTULO LIII
A CAMINHO!
Fui para o seminário. Poupa-me as
outras despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava.
Talvez chorasse mal ou nada. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem
nunca; diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente
os seus padecimentos íntimos, emendando os descuidos de minha mãe, fazendo-me
recomendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em
despedida, disse-me rindo:
— Anda lá, rapaz, volta-me papa!
José Dias, composto e grave, não dizia
nada a princípio; tínhamos falado na véspera, no quarto dele, onde fui ver se
era ainda possível evitar o seminário. Já não era, mas deu-me esperanças e
principalmente animou-me muito. Antes de um ano estaríamos a bordo. Como eu
achasse muito breve, explicou-se.
— Dizem que não é bom tempo de
atravessar o Atlântico, vou indagar; se não for, iremos em março ou abril.
— Posso estudar Medicina aqui
mesmo.
José Dias correu os dedos pelos
suspensórios com um gesto de impaciência, apertou os beiços, até que
formalmente rejeitou o alvitre.
— Não duvidaria aprovar a idéia,
disse ele, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão
alopata. A alopatia é o erro dos séculos, e vai morrer; é o assassinato, é a
mentira, é a ilusão. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina
aquela parte da ciência comum a todos os sistemas, é verdade; a alopatia é erro
na terapêutica. Fisiologia, anatomia, patologia, não são alopáticas nem
homeopáticas, mas é melhor aprender logo tudo de uma vez, por livros e por
língua de homens cultores da verdade...
Assim falara na véspera e no
quarto. Agora não dizia nada, ou proferia algum aforismo sobre a religião e a
família; lembro-me deste: "Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo".
Quando minha mãe me deu o último beijo: "Quadro amantíssimo!"
suspirou ele. Era manhã de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas
tomavam a bênção: "Bênção, nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua
Miquelina fica rezando por você!" Na rua, José Dias insistiu nas
esperanças:
— Agüente um ano; até lá tudo
estará arranjado.
CAPÍTULO LIV
PANEGÍRICO DE SANTA
MÔNICA
No seminário... Ah! não vou contar
o seminário, nem me bastaria a isso um capítulo. Não, senhor meu amigo; algum dia,
sim, é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi, das pessoas que
tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos
cinqüenta anos, não despega mais. Na mocidade é possível curar-se um homem
dela; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminário tive um companheiro que
compôs versos, à maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade-poeta era
recente. Ordenou-se; anos depois encontrei-o no coro de São Pedro e pedi-lhe
que me mostrasse os versos novos.
— Que versos? perguntou meio
espantado.
— Os seus. Pois não se lembra que
no seminário...
— Ah! sorriu ele.
Sorriu, e continuando a procurar
num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte, confessou-me que
não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cócegas da mocidade; coçou-se,
passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia, a
vida cara, um sermão do Padre X..., uma vigairaria mineira...
Contrário a isso foi um seminarista
que não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o
caso. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica, elogiado por algumas
pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimi-lo, e
dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é história velha; o que é mais moço é
que um dia, em 1882, indo ver certo negócio em repartição de marinha, ali dei
com este meu colega, feito chefe de uma seção administrativa. Deixara
seminário, deixara letras, casara e esquecera tudo, menos o Panegírico de
Santa Mônica, umas vinte e nove páginas, que veio distribuindo pela vida
fora. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lhas, e seria
impossível achar melhor nem mais pronta vontade; deu-me tudo, claro, certo,
copioso. Naturalmente conversamos do passado, memórias pessoais, casos de
estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada
saiu cá fora, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do
nosso velho seminário. Ou porque eram dele, ou porque éramos então moços, as
recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contrária
houve então, não apareceu agora. Ele confessou-me que perdera de vista todos os
companheiros do seminário.
— Também eu, quase todos; uma vez
ordenados, voltaram naturalmente às suas províncias, e os daqui tomaram
vigairarias fora.
— Bom tempo! suspirou ele.
E, após alguma reflexão, fitando
em mim uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:
— Conservou o meu Panegírico?
Não achei nada que dizer; tentei
mover os beiços, mas não tinha palavra; afinal, perguntei:
— Panegírico? Que panegírico?
— O meu Panegírico de Santa
Mônica.
Não me lembrou logo, mas a
explicação devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquisa mental,
respondi que por muito tempo o conservara, mas as mudanças, as viagens...
— Hei de levar-lhe um exemplar.
Antes de vinte e quatro horas
estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis anos, encardido,
manchado do tempo, mas sem lacuna, com uma dedicatória manuscrita e respeitosa.
— É o penúltimo exemplar,
disse-me; agora só me resta um, que não posso dar a ninguém.
E como me visse folhear o opúsculo:
— Veja se lhe lembra algum pedaço,
disse-me.
Vinte e seis anos de intervalo
fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas, mas era cortesia, era quase
caridade recordar alguma lauda; li uma delas, acentuando certas frases para lhe
dar a impressão de que achavam eco em minha memória. Concordou que fossem
belas, mas preferia outras, e apontou-as.
— Recorda-se bem?
— Perfeitamente. Panegírico de
Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me
esqueceu o seminário, creia. Os anos passam, os acontecimentos vêm uns sobre
outros, e as sensações também, e vieram amizades novas, que também se foram
depois, como é lei da vida... Pois, meu caro colega, nada fez apagar aquele
tempo da nossa convivência, os padres, as lições, os recreios... os nossos
recreios, lembra-se? o Padre Lopes, oh! o Padre Lopes...
Ele, com os olhos no ar, devia
estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim
depois de algum tempo de silêncio, recolhendo os olhos e um suspiro!
— Tem agradado muito este meu Panegírico!
CAPÍTULO LV
UM SONETO
Dita a palavra, apertou-me as mãos
com as forças todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só
com o Panegírico, e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece
um capítulo ou mais. Antes, porém, e porque também eu tive o meu Panegírico,
contarei a história de um soneto que nunca fiz. Era no tempo do seminário, e o
primeiro verso é o que ides ler:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida
e pura!
Como e por que me saiu este verso da
cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e,
ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um
soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa
hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi
logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como
de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio.
Quanto à idéia, o primeiro verso não era ainda uma idéia, era uma exclamação; a
idéia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha
o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia
competir com aquele monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu,
seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no
claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis;
francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida
e pura!
Quem era a flor? Capitu,
naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro
conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto,
recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o
esquerdo; afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim
vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que
concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na
forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final,
saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a
perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura.
Assim foi que me determinei a compor o último verso do soneto e, depois de
muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a
batalha!
Sem vaidade, e falando como se
fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento,
a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não
fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não
explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela
ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois
repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais.
A idéia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria
a justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia
acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha,
no sentido natural, e fazer dela a luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a
flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um
seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em
escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei
definitivamente uma idéia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a
seu modo, um languidamente:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida
e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a
batalha!
A sensação que tive é que ia sair
um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um
banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles
eram facílimos; os versos saíam uns dos outros, com a idéia em si, tão
naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que
a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso
e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha
nenhum. Tive alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama
e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cansado de esperar, lembrou-me
alterar o sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras,
assim:
Ganha-se a vida, perde-se a
batalha!
O sentido vinha a ser justamente o
contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma
ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha
do Céu. Criei forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível
que fosse pedir uma idéia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes, luzindo cá
embaixo, não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não
me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei,
esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em
prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que
escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não
fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os
dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses
dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver
chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto
sai. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta.
CAPÍTULO LVI
UM SEMINARISTA
Tudo me ia repetindo o diabo do
opúsculo, com as suas letras velhas e citações latinas. Vi sair daquelas folhas
muitos perfis de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos
quais é cônego na Bahia, enquanto o outro seguiu Medicina e dizem haver
descoberto um específico contra a febre amarela. Vi o Bastos, um magricela, que
está de vigário em Meia-Ponte, se não morreu já; Luís Borges, apesar de padre,
fez-se político, e acabou senador do império... Quantas outras caras me fitavam
das páginas frias do Panegírico! Não, não eram frias; traziam o calor da
juventude nascente, o calor do passado, o meu próprio calor. Queria lê-las
outra vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro dia,
ainda que mais breve. Era um encanto ir por ele; às vezes, inconscientemente,
dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade; creio que era quando os
olhos me caíam na palavra do fim da página, e a mão, acostumada a ajudá-los,
fazia o seu ofício...
Eis aqui outro seminarista.
Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um
pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não
estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde
lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não
apertavam as outras, nem se deixavam apertar delas, porque os dedos, sendo
delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha
nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui como lá. Esta
dificuldade em pousar foi a maior obstáculo que achou para tomar os costumes do
seminário. O sorriso era instantâneo, mas também ria folgado e largo. Uma coisa
não seria tão fugitiva como o resto, a reflexão; íamos dar com ele, muita vez,
olhos enfiados em si, cogitando. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto
espiritual, ou então que recordava a lição da véspera. Quando ele entrou na minha
intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas, e tinha
memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade
prejudicasse alguma outra.
Era mais velho que eu três anos,
filho de um advogado de Curitiba, aparentado com um comerciante do Rio de
Janeiro, que servia de correspondente ao pai. Este era homem de fortes
sentimentos católicos. Escobar tinha uma irmã, que era um anjo, dizia ele.
— Não é só na beleza que é um anjo, mas também na bondade.